CAP 1: Tiago encontrado
Ele esperou os soldados levarem todos os outros. Apesar de estar só, sentia-se sufocado. Olhava para os lados e via apenas uma coisa: areia. Dunas se formavam; o sol próximo do horizonte indicava que o anoitecer estava próximo.
- Identifique-se! – Um vulto gritou. O garoto estava deitado olhando para cima. Viu cinco vultos, ficou nervoso e não conseguiu falar nada. Os vultos usavam vestimentas de lã grossa que enrolavam seus corpos quase inteiros. O que falava, era mais baixo e tinha barba.
- Vamos garoto, não tenho o dia todo. – continuou o mesmo com a voz grave e rouca, com uma entonação autoritária.
- Noite ou dia? – Um outro mais magro corrigiu o barbudo com um tom sarcástico.
- Dane-se. Eu vou perguntar mais uma vez, identifique-se.
- Tecnicamente você não perguntou, e sim ordenou.
- Quer calar essa boca, Akiba?
- Não.
- Como?
- Quando você me perguntou, então me deu liberdade para responder o que eu quisesse, sendo é claro, coerente com a pergunta.
- Calado Akiba! Eu sou seu superior, me obedeça! – Terminou berrando o barbudo. Akiba soltou um riso baixo e calou-se.
- Pela última vez garoto, identifique-se! – O garoto manteve-se calado, com medo da situação.
- Já está bom, Tenente. Levaremos o garoto, e veremos o que fazemos com ele. –Falou uma voz mais aguda e suave, vinda de uma mulher.
- Ótimo, entregamos esse espião para nosso acampamento.
- Pessoal melhor pararmos de soltar informações sobre nosso grupo de guerrilheiros rebeldes. – Concluiu o mais alto e forte.
- Obrigado Alon, alguém mais quer contar alguma informação relevante, que possa prejudicar nossa base?
- Seu nome é Amnon, o tenente mais fraco de nossa facção.
- Sabia que eu te odeio? Quer saber, não vou perder nem mais um segundo! Alon o amarre e leve para a base. Vocês dois venham cá. – Amnon deu algumas instruções para a garota e Akiba. A garota seguiu na frente furtivamente inspecionando a área. Enquanto Akiba cuidava da retaguarda, Alon, Abba e James seguiam pelo meio. Depois de meia hora caminhando, Amnon comentou:
- Alon, vende os olhos do garoto. – Ele disse autoritário e sério:
- Sim mestre. – Alon aceitou com um tom de voz forte. Ele puxou de baixo de sua camisa um pano grosso de couro, foi para trás de James, virou e amarrou a venda na sua nuca. Depois virou o corpo de James quatro vezes. Depois passou a guiá-lo em direção a base. Passados uns minutos, chegaram ao acampamento. Era repleto de tendas e passavam alguns soldados ocasionalmente. Localizava-se num morro mais elevado. Os mais jovens ficavam observando de longe. Ao chegarem foram recepcionados pelo líder do grupo.
- Líder Avi, quando estávamos fazendo a ronda encontramos este garoto.
- Boa noite para você também Amnon. Um dos pequenos me disse isso do posto de observação. O deixarei com o esquadrão B. Vocês podem descansar.
- Entendido líder Avi, peço desculpas pela minha conduta grosseira.– Amnon abaixou-se reverente
- Não precisa…
- Precisa! – Amnon saiu em direção a uma tenda com a escritura “A”.
O garoto não via o que acontecia naquele ambiente, quase não escutava nem sequer, passos e vozes. Depois, escutou uma porta se abrindo, e foi jogado dentro dela. Apesar de sentir bastante fome, o garoto acabou dormindo.
No meio de seus sonhos, o garoto acordou repentinamente com sua venda sendo retirada.
- Garoto, estou aqui para te interrogar. – A voz vinha de um homem marcado, com idade mais avançada, com uma barba espessa, que ia até o peitoral. Tinha cabelos castanhos e lisos, pele morena e olhos amendoados. Usava roupas de qualidade levemente mais bem acabadas. Tinha uma espada no lado direito da cintura. Ao seu lado estava um homem alto e negro, com cabelos negros e crespos, bem curtos. Seu físico era extremamente musculoso com pouca gordura.
“Sou um prisioneiro. Tenho que encarar esse fato, e tentar torná-lo o melhor possível. Vou tentar me sair bem.”
- Meu nome é Tiago. – O garoto falou com firmeza.
- Muito bem… Muito bem… Me chamam de Ami e esse ao meu lado é Alon, Tiago. Eu vim aqui para descobrir o que fazia lá no deserto.
- Senhor Ami, meu povo foi atacado. – Tiago falou espontaneamente. Alon estranhou a rápida cooperação do jovem.
- Por quem?
- Pelo rei. Aquele maldito rei tirano. – Arriscou Tiago.
“Pelo que entendi, eles são rebeldes. Isso deve ser crível para eles.”
- Desculpe-me por interromper, Líder Ami, posso fazer uma pergunta? – Intrometeu-se Alon, com um olhar compenetrado.
- Claro. – Líder Ami, afastou-se alguns passos de Tiago, enquanto Alon aproximou-se.
- Garoto, fale-me de seu povo. – Alon pediu para ele com sua voz grave enquanto olhava profundamente em seus olhos. Ami observava a cena de longe. Tiago seniu-se pressionado pela situação e respondeu:
- Meu povo vivia neste deserto, perto de uma caverna. Nós vivíamos apenas com o suficiente para viver. O rei aumentou os impostos. Daí, nós não pudemos pagar mais nada e acabamos atacados por seus soldados. Não conseguimos sobreviver.
- Como você sobreviveu, então? – perguntou de longe Ami, bem intrigado.
- Eu conheço uma rota de fuga. Meus pais disseram para não levar ninguém comigo e jamais voltar. E aqui estou. – Tiago concluiu com alívio. Conseguiu não gaguejar, e bolar uma história coerente. Havia esperanças para ele sair daí.
CAP 2: O prisioneiro
O sangue pingava no chão. O seu nariz estava amassado, e seu rosto inteiro estava com feridas e manchas roxas. Sua boca estava inchada. Líder Ami olhava para Tiago com espanto.
- Por que disse isso? – Ami perguntou um tanto desapontado. Tiago não falou nada. Ami saiu da sala deixando Tiago jogado no chão.
Tiago estava amarrado e usando apenas sua calça. Era definitivamente um prisioneiro. Ele dormiu. Dormiu bastante tempo naquelas circunstâncias. E dormiria mais, se ele não estivesse escutado um barulho extremamente alto. Tiago pensou:
“O que será isso? Parecem uivos.” Os barulhos continuavam aumentando. “Bem eu tenho que sair daqui.” Tiago fechou os olhos, se concentrou, sua mão direita brilhou e dela surgiu uma pequena foice dourada. O cabo era marrom feito de madeira, tinha uma lâmina curvilínea feita de metal, afiada e polida. Na sua totalidade tinha 40 centímetros de extensão. Tiago cortou as cordas que o prendia, levantou-se e abriu a porta que o tiraria daquele quarto. Ao fazê-lo, viu um soldado de guarda. Usava as vestes padrões dos outros que o vigiavam antes. Era possível ver uma espada embainhada na sua cintura. Tiago observou o resto do ambiente. Havia alguns soldados correndo em direção a esquerda de onde estava. Ele estava abaixado, segurando sua foice pensando numa boa saída para a situação.
CAP 3: Flashback
- Tiago, acorde! Vamos seu pai está chateado, acorde! – Uma mulher gritava para um garoto que dormia. Ele levantou-se e virou-se para a mulher:
- Mãe, eu sinto sono. – o garoto falou para sua mãe.
- Ó meu filho, todos sentimos. Vem cá. – A mãe abraçou a cabeça do filho, e fez carinho em sua cabeça.
- Eu posso imaginar como é difícil começar a caçar. Mas é assim para todos. – A mãe alisa a cabeça do garoto. Depois beija sua cabeça, e sai do quarto onde James dormia. Cabisbaixo, Tiago abriu a porta, e viu seu pai de pé tomando chá.
- Olá filho. Vamos para a caçada? – O pai falou mostrando calor e motivação.
- Tudo bem pai. Estou indo. – Tiago tentou mostrar alguma emoção. Mas falhou. O clima entre ele e o pai ficou tenso.
- Tiago ainda tem que tomar café. – Lembrou a mãe.
- Ele comerá o que caçar e colher. – O pai falou com seriedade, força e intensidade. James olhou para ele com os olhos arregalados. Estava bastante assustado.
- João, pare com essas brincadeiras, vai assustar o menino. – Alertou a mãe, seguida de boas risadas do pai.
- Tô só brincando garoto. Pega aí umas frutas e algum chá. Eu te espero aqui. – Completou o pai. Depois se levantou pegou na cabeça do filho, e fez carinho em seu cabelo.
- Seu cabelo tá grande! Em breve poderemos fazer umas tranças. – O pai riu mais uma vez. Mas Tiago apenas esbanjou um pequeno sorriso. Sem graça, o pai ficou olhando para uma das sete janelas da casa. James comeu dois pêssegos, uma banana e um copo de café.
Após sua refeição James levantou-se, pegou sua mochila e ficou em pé perto da porta.
- Melhor vocês irem logo. – Concluiu a mãe.
- Tchau Ana!– Despediu-se o pai.
- Tchau mãe.
- Boa sorte! – A mãe despediu-se. Logo depois fechou a porta e voltou para seus serviços domésticos. Enquanto João e Tiago saiam para uma caçada. Essa era a segunda vez na vida de Tiago que ele ia caçar. E a sua primeira foi bem frustrante.
Pai e filho caminhavam sobre a vila, que ficava num vale próspero, com grande variedade de plantas e árvores. Havia algumas pessoas se deslocando com baldes d’água, cestas de frutas, sacos com carnes. John acenou para um homem branco, careca, com olhos claros; e bem magro.
- Oi! – Falou de longe o careca.
- Como vai, Horácio? – João perguntou de longe, enquanto aproximava-se dele. Tiago continuava completamente passivo na situação. Apenas seguia o pai cabisbaixo.
- Olha só. O pequeno Tiago cresceu bastante. – Horácio comentou. Tiago ficou envergonhado.
- É… Acho que sim… – Tiago tentou falou avermelhado tentando ser simpático.
- Já estamos de saída, então até a próxima, amigo. – João falou apressado. Queria caçar logo para poder conseguir comida o suficiente, compensando o tempo que perderia ensinando Tiago. Pai e filho continuaram andando em direção a zona de caça.
- Para onde!? – Horácio perguntou quando os dois já estavam mais distantes.
- Vamos caçar! – João falou sem parar ou virar para Horácio.
- Boa sorte! Tenham cuidado com os coelhos! – Proferiu mais uma vez Horácio. Tiago ficou estranhou as palavras de Horácio e virou-se, vendo Horácio de pé, observando-os.
- Pai… Quem era? – Tiago perguntou bastante intrigado.
- Um antigo companheiro meu. Você não lembra dele?
- Não… Não lembro… – Tiago falou hesitante e intrigado. Ele sentia conhecer Horácio, apesar de sua memória nada falar.
- Ele foi um grande companheiro meu, quando nós morávamos na vila antiga. Ele inclusive brincava muito com você.
- Ele mora aqui?
- Sim.
- Então… Por que vocês não se falam mais?
- Provavelmente porque ele é louco. – Depois das frias palavras João, Tiago ficou intrigado e recatado. Os dois seguiram em direção ao seu objetivo, passando por alguns cidadãos no caminho. Pouco antes de chegar na casa de Jacó, o homem responsável pelas armas, João encontrou-se com uma bela mulher. Ela era branca, tinha cabelos castanhos e longos, era magra e tinha o corpo bem distribuído, e traços finíssimos. João olhou para ela com um olhar diferente, e ficou avermelhado.
- Pai quem é?
- Que… Que… Quem?
- Essa moça bonita, que o senhor olhou.
- Eu não…
- Pai…
- Joana. – O pai se mostrava nervoso e envergonhado. Tiago andava olhando nos olhos do pai, que desviava o olhar.
- Só isso?
- Ela era uma boa moça na vila, mas se tornou uma habilidosa caçadora.
- Você gosta dela?
- O que???
- O que foi?
- Bem… ela é minha amiga, eu gosto dela. – João estava tão nervoso que tropeçou e caiu. Tiago soltou um risinho e continuou andando. João levantou-se e seguiu com o filho.
Pouco mais a frente, encontraram eles encontraram o homem responsável pelas armas. Tinha 1,90 m, perto de 60 kg, branco, com cabelos pretos e curtos e com a barba por fazer.
- Olá, João do pé de feijão. Do que precisa?
- Olá Jacó. Apenas o básico. Pretendo caçar coelhos.
- Tudo bem… Olha só, trouxe seu filho, como se chama? – Jacó perguntou interessado. Porém Tiago nada falou. Apenas ficou calado e cabisbaixo.
-Fale com o moço, filho.
- Meu nome é Tiago.
- Muito bem. Primeira vez, não é?
- Bem… Na verdade não. – desconversou Tiago. Jacó terminou de preparar o material da caçada. Entregou para Tiago e João.
- Façam bom uso, caçadores, e tenham cuidado. – Concluiu Jacó. João e Tiago acenaram positivamente com a cabeça. E seguiram em direção a zona de caça.
O local era repleto de árvores médias com uma variabilidade alta de frutas, arbustos com muitas folhas, animais pequenos ocasionalmente apareciam.
Passaram o dia caçando, e pegaram vários coelhos, e duas raposas. João guiou Tiago no percurso. O filho ficou o percurso inteiro apenas observando e seguindo as ordens do pai. No mais foi tranqüilo. Na volta, não conversaram, devolveram os equipamentos, entregaram os animais caçados, e receberam três coelhos e meia raposa, e voltaram para casa.
Quando Tiago e João chegaram a sua casa, Maria já havia voltado da colheita, e estava limpando a casa.
- Chegaram cedo! Como foi a caçada?
- Boa, conseguimos vários coelhos e até duas raposas. Então estou com três aqui.
- Que bom, trouxe algumas frutas, vou coser os coelhos para o jantar.
- Ótimo, vou descansar com meu filho né?
- Tá-tá certo. – Tiago lançou um sorriso singelo. A mãe cozinhou, preparou o suco, depois os três começaram a jantar.
- Como foi na colheita? – João perguntou para Maria tentando iniciar a conversa, enquanto tomava um gole de suco.
- Foi boa. Eu trabalhei com a Márcia e a Beth. Colhemos muitas frutas, e eu pude voltar para casa cedo. Aproveitei e deu um reparo na casa. Se encontrou com alguém no caminho?
- Bem… Me encontrei com Horácio, e obviamente com Jacó.
- Só com eles, pai? – Tiago estava terminando de comer seu coelho.
- O que quis dizer Filho? – Maria perguntou.
- Esquece. Nada não. – Tiago levantou-se e saiu andando em direção ao quarto.
- Filho, não vai comer?
- Já tô cheio. – Tiago entrou no quarto e foi dormir.
Enquanto Tiago estava no quarto, João e Maria começaram a discutir coisas que consideravam ser urgentes:
- Maria, Tiago está muito estranho. O menino é muito triste, chegando a ser depressivo, e eu tento ajudar, mas ele parece não se interessar pelo assunto. Ele parece não ligar para a vida. Eu pensei que fosse uma fase, mas isso só piora. Eu tento, Maria, eu juro que tento, mas não dá mais.
- João, você está exagerando. É o jeito dele.
- Não, não estou exagerando Maria. Eu estou triste até agora, mas eu tento rir um pouco,viver melhor, você entende?
- Amor, eu entendo… Eu… Não sei o que dizer. Só sei que Tiago sofreu muito.
- Nós todos!
- João ele é só um garoto!
- Amor, eu já fui criança, e eu ajudava meus pais! Pense os outros garotos todos colhem e caçam! Eu preservei meu filho até quando não deu mais! Você não sente?
- O que?
- Ele é diferente. Completamente diferente…
- Ele é especial.
- Especial? Ele às vezes parece vil.
- Mas é nosso filho!
- Isso é algo que eu duvido muito. – João tomou o resto do vinho, colocou a garrafa no chão e entrou em seu quarto. Maria ficou limpando a casa durante perto de duas horas e foi dormir.
Cap 4: O único.
Maria abriu a porta e entrou no quarto de Tiago. Ele estava acordado, olhando para o vazio com os olhos roxos e um pouco molhados.
- Bom dia Tiago. Seu pai está indo caçar. Melhor você se apressar. – A mãe tentou chamar o menino. Mas Tiago nada disse, apenas balançou a cabeça horizontalmente. João entrou no quarto, observou a situação e disse:
- Vamos logo. Estamos perdendo tempo de caça.
- Você sabe que dia é hoje?
- Filho…
- Você sabe que dia é hoje?! – Tiago já aos berros perguntou para o pai.
- Claro que eu sei. Vamos logo menino.
- Amor, é melhor…
- Hoje foi o dia que ele se foi. Hoje. Num dia maldito como hoje.
- Filho, todos nós sentimos a falta dele.
- Não sentem nada comparando comigo!
- Tudo bem, fique em casa. Eu pego a comida hoje. – O pai saiu de casa apressado. A mãe tentou consolar Tiago.
- Filho, vamos tentar terminar o dia em paz.
- Mãe, me deixe ir.
- Para onde?
- Vou dar uma volta, depois eu volto. – Tiago saiu com grosseria da casa. A mãe ficou com náuseas.
Tiago estava muito frustrado, e decidiu sair de casa de qualquer maneira. As áreas da vila tinham muitas plantas, e várias pessoas passavam. Eram caçadores e agricultores indos trabalhar. Tiago correu o máximo que conseguiu, passando pela zona de caça. Chegou numa área afastada. Não havia caçadores, agricultores, animais. Apenas muitas plantas. Tiago caiu de joelhos e apoiou seus braços no tronco de uma árvore. Ele chorava. Chorava cada vez que lembrava. Bateu com toda sua força no tronco da árvore. Ele questionava-se sobre sua permanência na terra. E foi até mais além.
- Saia daqui! Saia daqui agora! Me deixe em paz! Me deixe em paz! – Tiago gritou. Paranóico, ele se remexia olhando para uma das árvores. Ele via um garoto bem jovem, com idade estimada de 8 a 10 anos. Tinha cabelos castanhos escuros bem curtos, tinha uma cicatriz na bochecha direita. Media perto de 1,50 e aparentava ser bem magro. Sua pele era bem clara. Usava uma camisa verde floresta com gola pólo, com botões de uma extremidade para a outra verticalmente, sua calça, igualmente verde, era presa por um cinto preto de couro, com uma fivela dourada. Usava sapatos vermelhos pontudos sem salto. Ele estava de braços cruzados com um sorriso que não mostrava os dentes.
- Eu já te mandei embora! Você se foi, me deixe! – Tiago estava virado para o garoto enquanto berrava. Mas o garoto nada fazia. Apenas sorria.
Tiago escutou um latido de longe. Mexeu-se procurando de onde vinha o ruído. De repente, de um dos arbustos surgiu um cão. Media perto de 40 cm e tinha corpo esguio. Seus pêlos eram dourados levemente avermelhados. Uma pequena mancha branca podia ser vista abaixo de seu peito. As orelhas, triangulares, pendentes e médias, mexiam-se de um lado para o outro. Tinham grandes e arregalados olhos castanhos amarelados. O focinho era amarelo, de tamanho mediano. Suas costelas eram arqueadas, e seus dentes fechavam em forma de tesoura, de forma que se fecham, sem deixar espaços.
Tiago estranhou bastante a criatura. Ele havia a visto poucas vezes. Na sua vila antiga ele via ocasionalmente um ou outro. Pelo que lembrava eram usadas para transportes de objetos.
Tiago encarou o animal. O cão mostrava-se agressivo. Latia e se remexia. Tiago aproximou-se cuidadosamente do animal, e depois, ousou alisar a cabeça do cão.
Surpreendentemente, o cachorro aceitou com bom grado os carinhos de Tiago. Tiago abaixou-se e continuou a alisá-lo.
Ao anoitecer, Tiago entrava em sua casa. Seu pai e mãe estavam sentados na sala o esperando. Ambos estavam preocupados com a saída do filho. Tiago estava bastante sério, chegando a estar impassível.
- Filho, onde você estava? – João perguntou extremamente irritado. Sua veias saltavam com sua irritação, seu olhar estava focado em Tiago. Maria estava suando frio e olhava quase sem acreditar para seu filho.
- Eu saí.
- Como assim filho? Para onde? – Perguntou a mãe.
- Eu apenas saí.
- Filho, me conte para onde foi eu fiquei preocupado. – O pai exigiu autoritário. Tiago simplesmente ignorou e rumou a seu quarto.
- Filho me obedeça!
- Pai, me desculpe. – Tiago abraçou o pai enquanto chorava. Os dois se abraçaram por alguns instantes.
Logo depois, Tiago estava só em seu quarto. Chorava discretamente enquanto pensava. A mãe consolava o pai, e o pai consolava a mãe.
Cap 5: Procura.
Tiago estava andando. Andando, andando errante por uma estrada de terra no meio de alguns arbustos e árvores. A estrada era bem estreita e lisa. Tiago não sabia ao certo o porquê, mas ele simplesmente seguia.
CAP 1: Tiago encontrado
Ele esperou os soldados levarem todos os outros. Apesar de estar só, sentia-se sufocado. Olhava para os lados e via apenas uma coisa: areia. Dunas se formavam; o sol próximo do horizonte indicava que o anoitecer estava próximo.
- Identifique-se! – Um vulto gritou. O garoto estava deitado olhando para cima. Viu cinco vultos, ficou nervoso e não conseguiu falar nada. Os vultos usavam vestimentas de lã grossa que enrolavam seus corpos quase inteiros. O que falava, era mais baixo e tinha barba.
- Vamos garoto, não tenho o dia todo. – continuou o mesmo com a voz grave e rouca, com uma entonação autoritária.
- Noite ou dia? – Um outro mais magro corrigiu o barbudo com um tom sarcástico.
- Dane-se. Eu vou perguntar mais uma vez, identifique-se.
- Tecnicamente você não perguntou, e sim ordenou.
- Quer calar essa boca, Akiba?
- Não.
- Como?
- Quando você me perguntou, então me deu liberdade para responder o que eu quisesse, sendo é claro, coerente com a pergunta.
- Calado Akiba! Eu sou seu superior, me obedeça! – Terminou berrando o barbudo. Akiba soltou um riso baixo e calou-se.
- Pela última vez garoto, identifique-se! – O garoto manteve-se calado, com medo da situação.
- Já está bom, Tenente. Levaremos o garoto, e veremos o que fazemos com ele. –Falou uma voz mais aguda e suave, vinda de uma mulher.
- Ótimo, entregamos esse espião para nosso acampamento.
- Pessoal melhor pararmos de soltar informações sobre nosso grupo de guerrilheiros rebeldes. – Concluiu o mais alto e forte.
- Obrigado Alon, alguém mais quer contar alguma informação relevante, que possa prejudicar nossa base?
- Seu nome é Amnon, o tenente mais fraco de nossa facção.
- Sabia que eu te odeio? Quer saber, não vou perder nem mais um segundo! Alon o amarre e leve para a base. Vocês dois venham cá. – Amnon deu algumas instruções para a garota e Akiba. A garota seguiu na frente furtivamente inspecionando a área. Enquanto Akiba cuidava da retaguarda, Alon, Abba e James seguiam pelo meio. Depois de meia hora caminhando, Amnon comentou:
- Alon, vende os olhos do garoto. – Ele disse autoritário e sério:
- Sim mestre. – Alon aceitou com um tom de voz forte. Ele puxou de baixo de sua camisa um pano grosso de couro, foi para trás de James, virou e amarrou a venda na sua nuca. Depois virou o corpo de James quatro vezes. Depois passou a guiá-lo em direção a base. Passados uns minutos, chegaram ao acampamento. Era repleto de tendas e passavam alguns soldados ocasionalmente. Localizava-se num morro mais elevado. Os mais jovens ficavam observando de longe. Ao chegarem foram recepcionados pelo líder do grupo.
- Líder Avi, quando estávamos fazendo a ronda encontramos este garoto.
- Boa noite para você também Amnon. Um dos pequenos me disse isso do posto de observação. O deixarei com o esquadrão B. Vocês podem descansar.
- Entendido líder Avi, peço desculpas pela minha conduta grosseira.– Amnon abaixou-se reverente
- Não precisa…
- Precisa! – Amnon saiu em direção a uma tenda com a escritura “A”.
O garoto não via o que acontecia naquele ambiente, quase não escutava nem sequer, passos e vozes. Depois, escutou uma porta se abrindo, e foi jogado dentro dela. Apesar de sentir bastante fome, o garoto acabou dormindo.
No meio de seus sonhos, o garoto acordou repentinamente com sua venda sendo retirada.
- Garoto, estou aqui para te interrogar. – A voz vinha de um homem marcado, com idade mais avançada, com uma barba espessa, que ia até o peitoral. Tinha cabelos castanhos e lisos, pele morena e olhos amendoados. Usava roupas de qualidade levemente mais bem acabadas. Tinha uma espada no lado direito da cintura. Ao seu lado estava um homem alto e negro, com cabelos negros e crespos, bem curtos. Seu físico era extremamente musculoso com pouca gordura.
“Sou um prisioneiro. Tenho que encarar esse fato, e tentar torná-lo o melhor possível. Vou tentar me sair bem.”
- Meu nome é Tiago. – O garoto falou com firmeza.
- Muito bem… Muito bem… Me chamam de Ami e esse ao meu lado é Alon, Tiago. Eu vim aqui para descobrir o que fazia lá no deserto.
- Senhor Ami, meu povo foi atacado. – Tiago falou espontaneamente. Alon estranhou a rápida cooperação do jovem.
- Por quem?
- Pelo rei. Aquele maldito rei tirano. – Arriscou Tiago.
“Pelo que entendi, eles são rebeldes. Isso deve ser crível para eles.”
- Desculpe-me por interromper, Líder Ami, posso fazer uma pergunta? – Intrometeu-se Alon, com um olhar compenetrado.
- Claro. – Líder Ami, afastou-se alguns passos de Tiago, enquanto Alon aproximou-se.
- Garoto, fale-me de seu povo. – Alon pediu para ele com sua voz grave enquanto olhava profundamente em seus olhos. Ami observava a cena de longe. Tiago seniu-se pressionado pela situação e respondeu:
- Meu povo vivia neste deserto, perto de uma caverna. Nós vivíamos apenas com o suficiente para viver. O rei aumentou os impostos. Daí, nós não pudemos pagar mais nada e acabamos atacados por seus soldados. Não conseguimos sobreviver.
- Como você sobreviveu, então? – perguntou de longe Ami, bem intrigado.
- Eu conheço uma rota de fuga. Meus pais disseram para não levar ninguém comigo e jamais voltar. E aqui estou. – Tiago concluiu com alívio. Conseguiu não gaguejar, e bolar uma história coerente. Havia esperanças para ele sair daí.
CAP 2: O prisioneiro
O sangue pingava no chão. O seu nariz estava amassado, e seu rosto inteiro estava com feridas e manchas roxas. Sua boca estava inchada. Líder Ami olhava para Tiago com espanto.
- Por que disse isso? – Ami perguntou um tanto desapontado. Tiago não falou nada. Ami saiu da sala deixando Tiago jogado no chão.
Tiago estava amarrado e usando apenas sua calça. Era definitivamente um prisioneiro. Ele dormiu. Dormiu bastante tempo naquelas circunstâncias. E dormiria mais, se ele não estivesse escutado um barulho extremamente alto. Tiago pensou:
“O que será isso? Parecem uivos.” Os barulhos continuavam aumentando. “Bem eu tenho que sair daqui.” Tiago fechou os olhos, se concentrou, sua mão direita brilhou e dela surgiu uma pequena foice dourada. O cabo era marrom feito de madeira, tinha uma lâmina curvilínea feita de metal, afiada e polida. Na sua totalidade tinha 40 centímetros de extensão. Tiago cortou as cordas que o prendia, levantou-se e abriu a porta que o tiraria daquele quarto. Ao fazê-lo, viu um soldado de guarda. Usava as vestes padrões dos outros que o vigiavam antes. Era possível ver uma espada embainhada na sua cintura. Tiago observou o resto do ambiente. Havia alguns soldados correndo em direção a esquerda de onde estava. Ele estava abaixado, segurando sua foice pensando numa boa saída para a situação.
CAP 3: Flashback
- Tiago, acorde! Vamos seu pai está chateado, acorde! – Uma mulher gritava para um garoto que dormia. Ele levantou-se e virou-se para a mulher:
- Mãe, eu sinto sono. – o garoto falou para sua mãe.
- Ó meu filho, todos sentimos. Vem cá. – A mãe abraçou a cabeça do filho, e fez carinho em sua cabeça.
- Eu posso imaginar como é difícil começar a caçar. Mas é assim para todos. – A mãe alisa a cabeça do garoto. Depois beija sua cabeça, e sai do quarto onde James dormia. Cabisbaixo, Tiago abriu a porta, e viu seu pai de pé tomando chá.
- Olá filho. Vamos para a caçada? – O pai falou mostrando calor e motivação.
- Tudo bem pai. Estou indo. – Tiago tentou mostrar alguma emoção. Mas falhou. O clima entre ele e o pai ficou tenso.
- Tiago ainda tem que tomar café. – Lembrou a mãe.
- Ele comerá o que caçar e colher. – O pai falou com seriedade, força e intensidade. James olhou para ele com os olhos arregalados. Estava bastante assustado.
- João, pare com essas brincadeiras, vai assustar o menino. – Alertou a mãe, seguida de boas risadas do pai.
- Tô só brincando garoto. Pega aí umas frutas e algum chá. Eu te espero aqui. – Completou o pai. Depois se levantou pegou na cabeça do filho, e fez carinho em seu cabelo.
- Seu cabelo tá grande! Em breve poderemos fazer umas tranças. – O pai riu mais uma vez. Mas Tiago apenas esbanjou um pequeno sorriso. Sem graça, o pai ficou olhando para uma das sete janelas da casa. James comeu dois pêssegos, uma banana e um copo de café.
Após sua refeição James levantou-se, pegou sua mochila e ficou em pé perto da porta.
- Melhor vocês irem logo. – Concluiu a mãe.
- Tchau Ana!– Despediu-se o pai.
- Tchau mãe.
- Boa sorte! – A mãe despediu-se. Logo depois fechou a porta e voltou para seus serviços domésticos. Enquanto João e Tiago saiam para uma caçada. Essa era a segunda vez na vida de Tiago que ele ia caçar. E a sua primeira foi bem frustrante.
Pai e filho caminhavam sobre a vila, que ficava num vale próspero, com grande variedade de plantas e árvores. Havia algumas pessoas se deslocando com baldes d’água, cestas de frutas, sacos com carnes. John acenou para um homem branco, careca, com olhos claros; e bem magro.
- Oi! – Falou de longe o careca.
- Como vai, Horácio? – João perguntou de longe, enquanto aproximava-se dele. Tiago continuava completamente passivo na situação. Apenas seguia o pai cabisbaixo.
- Olha só. O pequeno Tiago cresceu bastante. – Horácio comentou. Tiago ficou envergonhado.
- É… Acho que sim… – Tiago tentou falou avermelhado tentando ser simpático.
- Já estamos de saída, então até a próxima, amigo. – João falou apressado. Queria caçar logo para poder conseguir comida o suficiente, compensando o tempo que perderia ensinando Tiago. Pai e filho continuaram andando em direção a zona de caça.
- Para onde!? – Horácio perguntou quando os dois já estavam mais distantes.
- Vamos caçar! – João falou sem parar ou virar para Horácio.
- Boa sorte! Tenham cuidado com os coelhos! – Proferiu mais uma vez Horácio. Tiago ficou estranhou as palavras de Horácio e virou-se, vendo Horácio de pé, observando-os.
- Pai… Quem era? – Tiago perguntou bastante intrigado.
- Um antigo companheiro meu. Você não lembra dele?
- Não… Não lembro… – Tiago falou hesitante e intrigado. Ele sentia conhecer Horácio, apesar de sua memória nada falar.
- Ele foi um grande companheiro meu, quando nós morávamos na vila antiga. Ele inclusive brincava muito com você.
- Ele mora aqui?
- Sim.
- Então… Por que vocês não se falam mais?
- Provavelmente porque ele é louco. – Depois das frias palavras João, Tiago ficou intrigado e recatado. Os dois seguiram em direção ao seu objetivo, passando por alguns cidadãos no caminho. Pouco antes de chegar na casa de Jacó, o homem responsável pelas armas, João encontrou-se com uma bela mulher. Ela era branca, tinha cabelos castanhos e longos, era magra e tinha o corpo bem distribuído, e traços finíssimos. João olhou para ela com um olhar diferente, e ficou avermelhado.
- Pai quem é?
- Que… Que… Quem?
- Essa moça bonita, que o senhor olhou.
- Eu não…
- Pai…
- Joana. – O pai se mostrava nervoso e envergonhado. Tiago andava olhando nos olhos do pai, que desviava o olhar.
- Só isso?
- Ela era uma boa moça na vila, mas se tornou uma habilidosa caçadora.
- Você gosta dela?
- O que???
- O que foi?
- Bem… ela é minha amiga, eu gosto dela. – João estava tão nervoso que tropeçou e caiu. Tiago soltou um risinho e continuou andando. João levantou-se e seguiu com o filho.
Pouco mais a frente, encontraram eles encontraram o homem responsável pelas armas. Tinha 1,90 m, perto de 60 kg, branco, com cabelos pretos e curtos e com a barba por fazer.
- Olá, João do pé de feijão. Do que precisa?
- Olá Jacó. Apenas o básico. Pretendo caçar coelhos.
- Tudo bem… Olha só, trouxe seu filho, como se chama? – Jacó perguntou interessado. Porém Tiago nada falou. Apenas ficou calado e cabisbaixo.
-Fale com o moço, filho.
- Meu nome é Tiago.
- Muito bem. Primeira vez, não é?
- Bem… Na verdade não. – desconversou Tiago. Jacó terminou de preparar o material da caçada. Entregou para Tiago e João.
- Façam bom uso, caçadores, e tenham cuidado. – Concluiu Jacó. João e Tiago acenaram positivamente com a cabeça. E seguiram em direção a zona de caça.
O local era repleto de árvores médias com uma variabilidade alta de frutas, arbustos com muitas folhas, animais pequenos ocasionalmente apareciam.
Passaram o dia caçando, e pegaram vários coelhos, e duas raposas. João guiou Tiago no percurso. O filho ficou o percurso inteiro apenas observando e seguindo as ordens do pai. No mais foi tranqüilo. Na volta, não conversaram, devolveram os equipamentos, entregaram os animais caçados, e receberam três coelhos e meia raposa, e voltaram para casa.
Quando Tiago e João chegaram a sua casa, Maria já havia voltado da colheita, e estava limpando a casa.
- Chegaram cedo! Como foi a caçada?
- Boa, conseguimos vários coelhos e até duas raposas. Então estou com três aqui.
- Que bom, trouxe algumas frutas, vou coser os coelhos para o jantar.
- Ótimo, vou descansar com meu filho né?
- Tá-tá certo. – Tiago lançou um sorriso singelo. A mãe cozinhou, preparou o suco, depois os três começaram a jantar.
- Como foi na colheita? – João perguntou para Maria tentando iniciar a conversa, enquanto tomava um gole de suco.
- Foi boa. Eu trabalhei com a Márcia e a Beth. Colhemos muitas frutas, e eu pude voltar para casa cedo. Aproveitei e deu um reparo na casa. Se encontrou com alguém no caminho?
- Bem… Me encontrei com Horácio, e obviamente com Jacó.
- Só com eles, pai? – Tiago estava terminando de comer seu coelho.
- O que quis dizer Filho? – Maria perguntou.
- Esquece. Nada não. – Tiago levantou-se e saiu andando em direção ao quarto.
- Filho, não vai comer?
- Já tô cheio. – Tiago entrou no quarto e foi dormir.
Enquanto Tiago estava no quarto, João e Maria começaram a discutir coisas que consideravam ser urgentes:
- Maria, Tiago está muito estranho. O menino é muito triste, chegando a ser depressivo, e eu tento ajudar, mas ele parece não se interessar pelo assunto. Ele parece não ligar para a vida. Eu pensei que fosse uma fase, mas isso só piora. Eu tento, Maria, eu juro que tento, mas não dá mais.
- João, você está exagerando. É o jeito dele.
- Não, não estou exagerando Maria. Eu estou triste até agora, mas eu tento rir um pouco,viver melhor, você entende?
- Amor, eu entendo… Eu… Não sei o que dizer. Só sei que Tiago sofreu muito.
- Nós todos!
- João ele é só um garoto!
- Amor, eu já fui criança, e eu ajudava meus pais! Pense os outros garotos todos colhem e caçam! Eu preservei meu filho até quando não deu mais! Você não sente?
- O que?
- Ele é diferente. Completamente diferente…
- Ele é especial.
- Especial? Ele às vezes parece vil.
- Mas é nosso filho!
- Isso é algo que eu duvido muito. – João tomou o resto do vinho, colocou a garrafa no chão e entrou em seu quarto. Maria ficou limpando a casa durante perto de duas horas e foi dormir.
Cap 4: O único.
Maria abriu a porta e entrou no quarto de Tiago. Ele estava acordado, olhando para o vazio com os olhos roxos e um pouco molhados.
- Bom dia Tiago. Seu pai está indo caçar. Melhor você se apressar. – A mãe tentou chamar o menino. Mas Tiago nada disse, apenas balançou a cabeça horizontalmente. João entrou no quarto, observou a situação e disse:
- Vamos logo. Estamos perdendo tempo de caça.
- Você sabe que dia é hoje?
- Filho…
- Você sabe que dia é hoje?! – Tiago já aos berros perguntou para o pai.
- Claro que eu sei. Vamos logo menino.
- Amor, é melhor…
- Hoje foi o dia que ele se foi. Hoje. Num dia maldito como hoje.
- Filho, todos nós sentimos a falta dele.
- Não sentem nada comparando comigo!
- Tudo bem, fique em casa. Eu pego a comida hoje. – O pai saiu de casa apressado. A mãe tentou consolar Tiago.
- Filho, vamos tentar terminar o dia em paz.
- Mãe, me deixe ir.
- Para onde?
- Vou dar uma volta, depois eu volto. – Tiago saiu com grosseria da casa. A mãe ficou com náuseas.
Tiago estava muito frustrado, e decidiu sair de casa de qualquer maneira. As áreas da vila tinham muitas plantas, e várias pessoas passavam. Eram caçadores e agricultores indos trabalhar. Tiago correu o máximo que conseguiu, passando pela zona de caça. Chegou numa área afastada. Não havia caçadores, agricultores, animais. Apenas muitas plantas. Tiago caiu de joelhos e apoiou seus braços no tronco de uma árvore. Ele chorava. Chorava cada vez que lembrava. Bateu com toda sua força no tronco da árvore. Ele questionava-se sobre sua permanência na terra. E foi até mais além.
- Saia daqui! Saia daqui agora! Me deixe em paz! Me deixe em paz! – Tiago gritou. Paranóico, ele se remexia olhando para uma das árvores. Ele via um garoto bem jovem, com idade estimada de 8 a 10 anos. Tinha cabelos castanhos escuros bem curtos, tinha uma cicatriz na bochecha direita. Media perto de 1,50 e aparentava ser bem magro. Sua pele era bem clara. Usava uma camisa verde floresta com gola pólo, com botões de uma extremidade para a outra verticalmente, sua calça, igualmente verde, era presa por um cinto preto de couro, com uma fivela dourada. Usava sapatos vermelhos pontudos sem salto. Ele estava de braços cruzados com um sorriso que não mostrava os dentes.
- Eu já te mandei embora! Você se foi, me deixe! – Tiago estava virado para o garoto enquanto berrava. Mas o garoto nada fazia. Apenas sorria.
Tiago escutou um latido de longe. Mexeu-se procurando de onde vinha o ruído. De repente, de um dos arbustos surgiu um cão. Media perto de 40 cm e tinha corpo esguio. Seus pêlos eram dourados levemente avermelhados. Uma pequena mancha branca podia ser vista abaixo de seu peito. As orelhas, triangulares, pendentes e médias, mexiam-se de um lado para o outro. Tinham grandes e arregalados olhos castanhos amarelados. O focinho era amarelo, de tamanho mediano. Suas costelas eram arqueadas, e seus dentes fechavam em forma de tesoura, de forma que se fecham, sem deixar espaços.
Tiago estranhou bastante a criatura. Ele havia a visto poucas vezes. Na sua vila antiga ele via ocasionalmente um ou outro. Pelo que lembrava eram usadas para transportes de objetos.
Tiago encarou o animal. O cão mostrava-se agressivo. Latia e se remexia. Tiago aproximou-se cuidadosamente do animal, e depois, ousou alisar a cabeça do cão.
Surpreendentemente, o cachorro aceitou com bom grado os carinhos de Tiago. Tiago abaixou-se e continuou a alisá-lo.
Ao anoitecer, Tiago entrava em sua casa. Seu pai e mãe estavam sentados na sala o esperando. Ambos estavam preocupados com a saída do filho. Tiago estava bastante sério, chegando a estar impassível.
- Filho, onde você estava? – João perguntou extremamente irritado. Sua veias saltavam com sua irritação, seu olhar estava focado em Tiago. Maria estava suando frio e olhava quase sem acreditar para seu filho.
- Eu saí.
- Como assim filho? Para onde? – Perguntou a mãe.
- Eu apenas saí.
- Filho, me conte para onde foi eu fiquei preocupado. – O pai exigiu autoritário. Tiago simplesmente ignorou e rumou a seu quarto.
- Filho me obedeça!
- Pai, me desculpe. – Tiago abraçou o pai enquanto chorava. Os dois se abraçaram por alguns instantes.
Logo depois, Tiago estava só em seu quarto. Chorava discretamente enquanto pensava. A mãe consolava o pai, e o pai consolava a mãe.
Cap 5: Procura.
Tiago estava andando. Andando, andando errante por uma estrada de terra no meio de alguns arbustos e árvores. A estrada era bem estreita e lisa. Tiago não sabia ao certo o porquê, mas ele simplesmente seguia.