CAPÍTULO UM
Em um casarão no campo, isolado de boa parte da população, vivia um garoto chamado Will Schmitt. Ele era um garoto de quatorze anos, caucasiano, alto e magro. Tinha cabelos castanhos, crespos e curtos. Possuía pequenos olhos cor de mel. Usava antiquados óculos redondos com fundo de garrafa. Seu rosto tinha algumas sardas, e também espinhas.
Morava com um tio, alto e gordo, com uma espessa barba negra e olhos com cor de avelã, seu nome era Tito. Passava o dia inteiro mexendo em um caldeirão, misturando líquidos, e colocando ingredientes. Depois colocava em frascos e catalogava.
O garoto era completamente normal, exceto por um detalhe: ele era um garoto doente. Não se sabe exatamente o que ele tinha, era ameno, e tinha dificuldade de andar. Vivia tendo resfriados, dores de cabeça e ficava facilmente com a garganta inflamada e com o nariz entupido. Pouco saia de casa, afinal tinha muita dificuldade para se levantar da cama, e quando saia, não podia nem ir muito longe, logo tinha que descansar.
Passou boa parte da infância dentro do quarto observando a paisagem do jardim de sua casa, que tinha uma bela vista da janela. Tentava fazer mais coisas, mas era bem limitado fisicamente. Graças ao tio, comia e dormia bem.
Mas apesar dos cuidados de Tito, viver uma vida inteira dentro de um quarto não é nada animador. O garoto vivia pensando em aventuras que poderia ter mundo afora.
Um dia, algo inusitado acontece, e uma mulher abre a porta do quarto de Will subitamente. Era uma mulher já idosa. Marcada por rugas no rosto, tinha cabelos brancos, presos por uma fivela singela. Usava um vestido preto que a cobria do pescoço aos joelhos. Para completar ainda usava meia-calça e sapatilhas pretas. Ele acha estranho, e a fita por um tempo, e pergunta com voz levemente rouca:
- Quem é você? E cadê o Tito? – Ela fica meio cabisbaixa, com um olhar desolado, morde os lábios e responde bem pausadamente:
- Seu tio estava doente, não passava bem. Além do mais, depois de certa idade a gente começa a cansar ficar doente se torna normal. – O garoto balançou a cabeça com um olhar revoltado, uma lágrima escorre de seu rosto.
- Você tem que entender que… Que… Essas coisas simplesmente acontecem. – O garoto respirou bem fundo, e perguntou:
- Ele morreu?- houve uma pausa incomoda. Ela contorcia os lábios tentando dizer alguma coisa. As narinas dela estavam cheias de muco. Ela conseguiu apenas balançar a cabeça verticalmente, confirmando as suspeitas. Will, desconfiado, continuou sua indagação:
- O que você é do meu tio? – Ela esbanjou um pequeno sorriso, e respondeu:
- Uma amiga. Eu devo muito a seu tio. – O garoto balançou a cabeça de novo, franziu a testa, e ficou encarando a pobre senhora. Depois de engolir sua própria saliva, perguntou:
- O que está fazendo aqui? Não entendo como você veio para cá justo no dia da morte dele, principalmente numa morte instantânea como essa. – ela olhou para baixo e pensou por alguns segundos, depois olhou bem nos olhos de Will e respondeu:
- Já disse que sou amiga do Tito. Vim fazer uma visita. – O garoto ficou bastante tenso, ficou avermelhado e com um tom alto e grosso, disse:
- Você ainda está achando que eu sou tão ingênuo? Eu nunca saí daqui, um dia sequer, desde que tomei consciência de minha existência, e nunca a vi ou ouvi, Fale a verdade velha! Você matou meu tio Tito? – A senhora que se mostrava tão tranqüila há poucos segundos, ficou agitada, e respondeu:
- Eu matei seu tio. – A expressão do garoto mudou de raiva para medo, seus olhos arregalaram, o coração acelerou, ele não esperava aquelas palavras vindas de tal maneira. Um sentimento de revolta surgiu em seu coração. Ele sentiu que tinha que reagir.
Mesmo sabendo que com a sua condição não poderia fazer nada, ele não tinha mais apego ao mundo, afinal, não tinha motivações ou sonhos, e não hesitou em ser descuidado. Impulsionado pela raiva, tentou se levantar da cama. Com todas as forças pegou uma bengala com uma mão, se apoiou na parede com outra, e conseguiu ficar de pé. Mesmo com as pernas trêmulas, conseguiu se equilibrar. Fitou a mulher com um olhar enfurecido, e com muito desespero tentou correr.
Mas Will sofria de grande fraqueza, e logo nos dois primeiros passos, fraquejou, e caiu no chão. Tentou se levantar várias vezes, mas não conseguiu. A senhora observava o garoto silenciosamente, e com um olhar bem sério. As pálpebras de Will foram se fechando gradualmente, e a única coisa que conseguiu fazer foi ouvir a mulher falando:
- Agora, quem morre é você, garoto.
CAPÍTULO DOIS
Ele acordou surpreso, pensava que tinha morrido. Pensou por alguns segundos que ele poderia realmente ter padecido, e que estaria em estado espiritual. Mas não, estava mesmo em sua casa, e não havia andado um passo sequer, estava no mesmo local. Ele pensava: “o que aquela mulher fez? Ou melhor, ela fez alguma coisa?”
Ele ficou um tempo refletindo sobre os últimos ocorridos. Sentiu fome, de acordo com a janela já estava durante a tarde. Ele precisava comer.
Will apoiou-se na parede com uma mão, e com a outra, segurou a bengala. Ficou um segundos olhando para o vácuo, tentava pensar que dessa vez ele poderia andar. Deu os primeiros passos com insegurança, mas conseguiu andar perfeitamente, como nunca havia feito em sua vida. Depois largou a bengala, e ficou andando ereto normalmente.
Ele ficou emocionado. A primeira coisa que veio a sua cabeça foi se ele era capaz de correr. Para alguém como Will, correr era o ápice da liberdade.
Mas ele ainda estava muito chocado, afinal Tito havia morrido. Foi para o quarto de seu tio, para ver como ele estava. Encontrou o corpo do tio deitado em sua cama. Ele estava com as pálpebras fechadas, usando seu pijama habitual, coberto por um cobertor, e com os pés sujos fora da cama, fora do alcance do cobertor. Havia migalhas de bolachas no chão e um copo de vidro. Verificou que o tio estava com o bigode melado de líquido branco. Tudo no quarto do tio estava como deveria. O quarto era muito simples, tinha uma cama, bem modesta, ela ficava na altura do chão, e tinha um colchão de baixa qualidade, e um travesseiro simplório. Tinha também uma escrivaninha marrom, com madeira de ótima qualidade e enorme, com 10 gavetas, recheadas de livros e papéis com anotações.
Will pensava: “Não entendo! O que aconteceu com meu tio? Isso está muito estranho. Não entendo nada. O que será que aquela velha fez comigo?”. Teve a idéia de inspecionar o quarto mais profundamente, afinal, se alguém entrou e fez alguma coisa, ele tem que deixar algum rastro.
No começo da busca, ele encontrou um envelope. Ele era amarelado e estava mofado. Não estava colado. Will sentiu que ele tinha que abri-lo.
Abriu, e verificou que dentro tinha uma carta, escrita pelo seu tio. Ele tinha certeza, afinal a letra de seu tio era inconfundível, pois era cheia de garranchos.
CAPÍTULO TRÊS
Ele andava errante pela estrada. A conhecida planície de Guin-Blin. Ela tinha Aquele caminho era um atalho para chegar a Carabás.
Ele era um gato. Um gato que andava em pé. Tinha olhos cor de esmeralda, pêlo dourado, focinho rosado, e uma bela cauda. . Vestia um capuz enorme, que ia até perto de suas pernas e usava um belo par de botas, feito com couro bovino de alta qualidade, que também tinham algumas pedras vermelhas e brilhantes.
O gato carregava apenas uma trouxa com peixes de alimento, e uma garrafa com água. Ele parecia cansado, o capuz já estava desgastado, e ele estava sujo. De longe ele foi avistando um pequeno castelo. Feito de pedra, com duas torres, e três andares. Tinha algumas janelas em formato de meia elipse.
O gato caminhou até o grande portão do castelo. Feito de madeira dura de carvalho, com faixas de metal. Curioso, bateu na porta com a “maçaneta”.
- Já estou indo!- escutou uma voz grave, rouca, de forma que parecia estar arrotando. Depois, com sua audição de gato aprimorada, conseguiu escutar, com um pouco de dificuldade alguns sussurros:
- Silêncio. Pode ser algum ladrão ou gatuno. Você é tranqüilo demais! Santa Petúnia! Preocupe-se mais com nossa segurança, Cícero. – outra voz, desta vez, era mais suave e tranqüila, mas da mesma forma, parecia arrotada.
- Foi mal Prático. É que eu acho que você anda estressado demais. Tá ficando mais careta assim. Apenas relaxe. – Outra voz é ouvida, desta vez mais grave, de forma que parece grosseira, e também parece estar sendo arrotada:
- Cícero você é humano? Quem poderia nos visitar? – A terceira voz, continua, mas agora com um tom sarcástico:
- Talvez você ache que é um vizinho novo, querendo nos dar 10 Kg de ouro. – Cícero e o terceiro começam a rir. Prático fala com uma grave, de jeito preocupado, como se faz em sermões:
- Muito engraçado, Cícero e Heitor. Vocês poderiam levar alguma coisa a sério. – e continua com tom sarcástico:
- Lembram a coisa linda que ficou a casa de vocês? – Heitor, voltou com sua voz grave e grosseira, e retruca:
- Cala a boca. – Cícero, com voz ainda calma e mansa, completa:
- Dá um tempo, como eu poderia saber? Você conhece algum vidente? – Quando Prático estava começando sua resposta, é interrompido. O gato resolve intervir, e lança um grito, com voz entusiasmada e nostálgica:
- Cícero! Heitor! Prático! É o Gato de Botas, de Carabás! – A discussão termina, todos ficam gritando eufóricos. Heitor fala mais alto, com sua usual voz grave, mas com a tonalidade mais hospitaleira:
- Olha só! O gato! Venha Cícero! Traga o violão.
- Banjo.
- Tanto faz.
CAPÍTULO QUATRO
Os três porcos estavam desnudos. Eram todos bípedes e rosados, tinham um rabo enrolado e curto. Cícero era o mais baixo. Tinha o corpo inteiro esbelto. Tinha apenas a barriga saltada para fora. Tinha na orelha, três partes furadas, como se tivesse recebido uma mordida. Heitor era o mais alto. Tinha o corpo quadrado, e era gordo. Prático era o mais gordo. Quando andava as banhas ficavam balançando como gelatina. Tinha o rosto emburrado. Com as sobrancelhas franzidas.
O gato esbanjava um pequeno sorriso. Da última vez que conversara com os porcos estavam construindo suas casas. Mas nada de castelo. Eles haviam se desentendido e iriam morar sozinhos. O gato ficou bastante curioso, e perguntou com seu habitual sotaque hispânico:
- estão a viver juntos?- Os porcos se entreolharam um pouco. Cícero fez um sorriso sarcástico e balançou a cabeça positivamente. Prático virou seu corpo para o lado oposto a de seus irmãos e respondeu:
- Infelizmente sim. Estes preguiçosos fizeram casas frágeis e quando fomos atacados pelo lobo, suas casas foram para os ares.- Heitor franziu o rosto em expressão de raiva. Contorceu o lábio, mas se conteve. Concluiu com uma pseudo-tranqüilidade:
- Claro, que Prático não mencionou, que todos participamos na construção deste castelo. – Prático ficou avermelhado. E ficou encarando Heitor, que correspondeu com ele. Cícero estava tranqüilo com a situação. A implicância dos irmãos era algo rotineiro.
O gato tentou quebrar a tensão, dizendo:
- Prático creio que sus hermanos já pagaram o que deviam. Heitor recorda que ele salvou su vida. Isso também vale para você Cícero. – Os porcos ficaram olhando para o vácuo pensando na má impressão e hospitalidade que estava dando ao visitante. Prático fez sinal para que o gato entrasse. Mostrou aposento por aposento do castelo. O gato observava tudo muito interessado, principalmente, porque os porcos haviam feito tudo sozinhos. Eram ótimos nisso, apesar do choque de idéias opostas.
- Vamos ter um banquete esta noite. Você é nosso convidado de honra. – Prático falou isso enquanto arrumava uma cama no quarto de hóspedes.
- Você dormirá em nossa melhor cama! – o gato ficou um pouco envergonhado. Mas gostou muito. Ficou olhando para seus amigos porcos por alguns momentos. E disse:
- yo no soy digno de amigos como usted. – Uma lágrima escorreu do brilhante olho do gato. Ele enxugava a lágrima com as patas enquanto se desculpava. Os porcos se emocionaram bastante com a cena. Os três se aproximaram do gato e disseram em coro:
- Pelo contrário! Você nos salvou! E mais de uma vez!- E abraçaram o gato. Um abraço quente e terno de verdadeiros amigos. O gato continuou:
- cuando eu ajudei a usted? Usted non recuerda a salvar! Non pude nem te salvarán do grande lobo mau!– Todos estavam chorando. Um choro de reencontro, de saudade. Heitor justificou com voz chorosa:
- Gato, você não precisou realizar proezas heróicas conosco! Você nos uniu! Agora você nos lembrou o quanto tentou nos aproximar! O resultado disto é este glorioso castelo!- Instantaneamente, o gato se sentiu novamente um cavaleiro honrado, como nos velhos tempos.
A noite caiu. Os porcos estavam arrumando o castelo desesperados. O gato insistiu em ajudá-los, e foi com eles. Eles tinham que arrumar uma mesa enorme. Estavam vindo mais de quinze porcos. Se não fosse a destreza do gato, eles jamais teriam feito tudo. Os guardas do castelo estavam em seus postos na torre. Quatro arqueiros, e outro para tocar a corneta de aviso. Todos eram porcos. Fortes e equipados, mas ainda apenas porcos.
Os próprios porcos arrumaram o castelo, acenderam as lâmpadas, colocaram a mesa, e fizeram o prato da noite. Eram acostumados a fazer tudo sozinhos. Em dado momento, os porcos já tinham arrumado a casa inteira e estavam esperando por seus convidados. Depois de alguns ansiosos minutos, o primeiro convidado chegou. Era um porco magro comparando-se aos três irmãos. Seu pêlo era repleto de manchas negras. Tinha um rabo enrolado e curto. Tinha o rosto marcado por uma rodela negra em volta de seu olho. Tinha músculos mais desenvolvidos e era mais alto que os outros. Estava segurando um embrulho cúbico com sua pata esquerda. Os porcos ficaram observando ele meio assustados. Ele, que até então estava sério, ergueu seu lábio uns poucos milímetros para cima. Seus olhos se arregalaram levemente. Ficou um silêncio constrangedor. O gato observava a cena escondido atrás da porta, de um jeito tal, que nem mesmo os irmãos porcos perceberam.
O porco visitante coçou a nuca com a mão direita. Riu baixo, de forma que apenas o gato percebeu. Utilizando-se de uma tonalidade grave e alta, disse:
- Olá irmãos Porko! Como passam?- Os três entreolharam. Heitor respondeu num tom forçado, com uma falsa animação óbvia, e quase sarcástica:
- Olha só! Aquiles! O porco mais forte! Vejo que manteve sua reputação. Está em ótima forma. – Aquiles pareceu compreender muito bem a intenção de Heitor. Roncou, e retrucou com tom arrogante:
- Vejo que não posso dizer o mesmo. Leitão, você está gordo! – Ocorreu outro momento de silêncio. Cícero, sempre despreocupado e avoado, estava pensando em letras de música que pensava em compor. Desinteressou-se tanto pelo assunto travado por Heitor e Aquiles, que simplesmente olhou para trás. O gato sabia como se esconder. Mas Cícero, apesar de não ter a intenção e preocupação, conseguia sentir a presença do Gato. Cícero fitou o Gato por alguns segundos. Até ele se certificar que tinha sido notado. Então surgiu repentinamente. Aquiles arregalou bastante os olhos. Ficou surpreso, afinal já havia ouvido muito falar do Gato. Era inconfundível